sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Interlocução Necessária: TOP 5 de personagens neuróticos para The Tramps
Interlocução Necessária
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Marcelo Müller é crítico de cinema, membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Estudante de jornalismo, escreve para o Papo de Cinema,o maior portal on-line do Sul do Brasil sobre cinema, além de assinar o blog The Tramps. A Coluna TOP 5 foi por ele idealizada como forma de incluir novas vozes em seu blog, inserir colaboradores e estabelecer uma interlocução necessária para não nos isolarmos em discursos circulares e estéreis. Adorei a ideia e o convite para participar escolhendo os TOP5 de personagens neuróticos. Devo confessar que foi um desafio, mas daqueles muito estimulantes! Obrigada, Marcelo, por tornar essa rede espaço para novas possibilidades de bons encontros e trocas significativas!
Aí vai minha seleção:
http://litcine.blogspot.com.br/2014/11/top5-personagens-neuroticos.html
terça-feira, 25 de novembro de 2014
No Limite do Amanhã
No Limite do Amanhã
Por Ana Lucia
Gondim Bastos
Faz
parte da condição humana a consciência de que teremos um amanhã como limite e
de que viver é, inclusive, ter que dar conta dessa inevitabilidade. Não sabemos quando
será, nem como será e essa indefinição nos deixa, por um lado, ainda mais
vulneráveis, mas, por outro, podendo viver considerando que sempre teremos tempo
pela frente. Ou seja, nos sabemos mortais, mas, ainda assim, fazemos planos e
projetos como se não houvesse esse amanhã, limite para tudo. É um malabarismo
necessário: a consciência das nossas limitações e a abertura para sonhar com
futuros e para as experiências no mundo, sem deixar que tal consciência
nos oprima a ponto de engessar tais possibilidades de sonho e de experiências. E
já que a vida é esse incansável adiamento da morte, não podemos considerar
ilegítima nossa, também incansável, busca por extrapolar os limites impostos,
nesse caminho.
O crescente desenvolvimento tecnológico e seus recursos mágicos,
já nos permitem desafiar muitas leis da física e ter experiências, há pouco
tempo, tidas como impossíveis a reles mortais. Contudo, poder estar interagindo
em lugares diferentes ao mesmo tempo ou com pessoas que estejam geograficamente
muito distantes, tanto pode ser um recurso interessante de ampliação das nossas
possibilidades de interação e comunicação com o mundo, como pode atiçar nossa
onipotência aplacando a dor de nos sabermos limitados, o que nos enfraquece,
por nos deixar reféns da ilusória capa da fortaleza de quem tudo pode. Esta
última vai nos deixando cada vez mais dependentes dos recursos que nos geram a
saudosa sensação do narcisismo inabalável e vai nos afastando do mundo, ao
invés de nos aproximar dele.
E
o que falar dos games? Com eles podemos virar qualquer personagem, inventar
características para nosso(s) avatar(es) e viver uma, duas ou várias vidas
paralelas. De cara penso que poderia ser uma ampliação do mundo do faz de conta,
das possibilidades de se projetar em outras realidades e de contar novas histórias. Agora, então, que
se pode jogar com pessoas de diversas partes do mundo, como se todos estivessem
ao redor de um mesmo tabuleiro, mais legal ainda! Incrível alternativa para buscar novas
estratégias e formas de enfrentar os desafios que o jogo oferece. Contudo, não podemos deixar de notar o alarmante uso dos games como mais um recurso de descarga rápida de
energia, sem grandes elaborações acerca do que se está fazendo ou produzindo
(no mundo interno ou externo) com as ações que tomam conta, às vezes, de várias
horas do dia. Muito comum entre os adolescentes, mas não exclusividade deles, é a
necessidade de voltar a jogar, colocando tal atividade como prioridade na vida.
Em alguns casos, todas as outras atividades passam a ser encaradas como
obrigações a serem cumpridas para, finalmente, se poder voltar a jogar. De
frente para uma tela de computador, com movimentos repetitivos de dedos, uma
pessoa pode passar dias e/ou madrugadas atirando em inimigos, caçando tesouros
e acumulando pontos para ser mais poderoso na próxima jogada.
O
filme “No Limite do Amanhã”(Doug Liman, 2014), traz para as telona uma vivencia
que pode ser reveladora de um aspecto importante da atratividade, quase
hipnótica, dos games. No filme de ficção científica, cujo cenário é a Terra durante um ataque
alienígena que ameaça a humanidade, o Major William Cage (personagem de Tom
Cruise) fica num loop temporal, condenado a voltar inúmeras vezes para o dia
anterior ao de sua sua morte. Contudo, as repetições vão fazendo com que possa
se preparar, cada vez melhor, para a batalha do dia seguinte, já que tem o
poder de saber como será esse futuro (seu amanhã limite). É como num game no
qual o jogador tem várias vidas e que vai se aperfeiçoando até que possa mudar
de fase e, então, mudar a “realidade” da tela. Se algo deu
errado ou se não foi astuto o suficiente para evitar algo desagradável, basta
“deixar-se” morrer para que na nova vida se tenha chance corrigir o erro, numa
repetição de quadro.
Na vida fora dos games, no entanto, espaço no
qual nosso corpo físico está em jogo (ou no jogo) e, por isso mesmo, estamos
envolvidos “até o último fio de cabelo”, é preciso reconhecer erros e deslizes
de outra forma. Precisamos ser capazes de reparar nossos erros e deslizes,
buscar caminhos a partir dali, já que não dá para zerar o jogo e repetir o
quadro. É preciso seguir daquele ponto, buscando novas telas ou cenários,
contando com o que já foi como experiência e nunca como repetição, sem
possibilidade de editar a história ou mudar de avatar! E disso só conseguimos dar conta num outro tipo de interação, tanto com o outro, quanto com a nossa própria narrativa. Há algo de mórbido nessa repetição, que se configura numa narrativa que não flui.
domingo, 16 de novembro de 2014
Da Mariana Alcoforado às Marianas de todos os tempos
Da Mariana Alcoforado às Marianas de todos os tempos
Por Ana
Lucia Gondim Bastos
novo endereço do blog: https://tecendoatrama.wordpress.com/
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“À
luz – ou à sombra – da nossa própria época, o que nos ocorre dizer, ao reviver
o encontro de uma religiosa amante das letras e um militar que não chegou a
aprender o idioma da sua amante?”
A
partir desse questionamento, proveniente da imersão nas cartas de amor escritas
por Mariana Alcoforado no século XVII, Betina Ruiz (escritora que hoje, reside
em terras portuguesas), numa espécie de solilóquio, atualiza a dor da entrega a
um amor que não pode ser mais vivido. Talvez, também, a dor de cartas que não seguiram
com seu destino de correspondência, de manutenção do contato com o outro, esse
outro destinatário de tanto amor.
“Mari”
nos fala da importância de poder contar - e talvez até da esperança de que
também Mariana Alcoforado pudesse contar – com o acolhimento de outras
mulheres, “amigas para nos guiarem pelas mãos” , vozes que possam, em algum
momento, nos dar força com palavras como: “Escapa, Mariana, dos círculos
invisíveis que aprisionam”. É, assim, um delicado texto sobre o universo
feminino e sobre resistência e luta (inclusive interna) pelo direito à vida, ao
amor e à liberdade de viver o amor e uma vida inteira.
Por
isso mesmo, a obra ganha ainda mais sentido e força, quando Betina convida a
artista plástica portuguesa Filomena Bento para ilustrar e encontra, então, o
diálogo necessário. Assim, Betina Ruiz e Filomena Bento vão encontrando
tradução para os mil encontros, das sem número de Maris: Da Mariana Alcoforado
às Marianas de todos os tempos, da Mariana Alcoforado à Mariana que vive dentro
de cada uma de nós, da Mariana Alcoforado à todas as mulheres que contam
histórias de amor e de luta contra segregação e contra as imposições de
silenciar suas vozes e anular suas existências, seja na história da humanidade,
seja em nossas trajetórias individuais.
Como não puderam participar do lançamento brasileiro do resultado dessa co autoria, novos convites de parceria foram feitos: Betina (parte brasileira da produção) convidou mulheres que participaram de diferentes formas, em momentos diversos de sua história, para lerem trechos do livro: uma irmã, uma amiga das irmãs desde a época da adolescência, uma amiga de faculdade e uma amiga do início da vida profissional. Várias vozes, várias Maris, várias mulheres, várias histórias reunidas num mesmo texto... Bonito, mesmo, de ver e um privilégio participar!
Como não puderam participar do lançamento brasileiro do resultado dessa co autoria, novos convites de parceria foram feitos: Betina (parte brasileira da produção) convidou mulheres que participaram de diferentes formas, em momentos diversos de sua história, para lerem trechos do livro: uma irmã, uma amiga das irmãs desde a época da adolescência, uma amiga de faculdade e uma amiga do início da vida profissional. Várias vozes, várias Maris, várias mulheres, várias histórias reunidas num mesmo texto... Bonito, mesmo, de ver e um privilégio participar!
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Frida y Diego
FRIDA Y DIEGO
Por Ana Lucia Gondim Bastos
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Diz um ditado - já um tanto
anacrônico, é verdade – “Por trás de um grande homem, existe sempre uma
grande mulher!”. Era utilizado para enaltecer a mulher que, supostamente dava
suporte, no âmbito da vida privada, para as grandes realizações de homens que
se destacavam na vida pública. Atualmente, já ouvi, o mesmo ditado, dito
invertendo as posições de gênero, o que não soa estranho, tendo em vista as
muitas mudanças nas relações de gênero e em suas inserções sociais, seja no
tocante à vida pública, seja à vida privada. É bem verdade que, hoje em dia,
não soaria nada estranho se o mesmo ditado falasse sobre duas mulheres ou sobre
dois homens, mas, a questão é: por que uma parte do casal precisaria estar à
sombra da outra?
Frida y Diego (peça dirigida por
Eduardo Figueiredo e escrita por Maria Adelaide Amaral, em cartaz no Teatro
Raul Cortez, em São Paulo), traz esse questionamento à tona, em situações
transcorridas entre 1929 e 1953, protagonizadas pelo casal cuja relação pareceu
estar sempre “com sol a pino”, sem que a sombra de um recaísse sobre o outro,
seja na perspectiva pública, seja na
perspectiva privada (apesar de, em momentos alternados, um manifestar a sensação de menor que o outro).
Obras e vidas de cores quentes, de militâncias aguerridas e sentimentos intensos! O encontro do caminho de Frida com o de Diego (segundo ela
um acidente tão impactante em sua história, quando o sofrido na juventude,
consequência do qual passou muito tempo de cama recuperando-se das inúmeras
cirurgias, muito tempo utilizando toda sorte de aparelhos ortopédicos e todo o resto do tempo com dores atrozes),
fez com que expusessem, em suas obras e em suas narrativas de vida, a força das
transformações sociais, políticas e culturais pelas quais vinham passando toda a coletividade. Todos os conflitos e ambivalências, vividos por todos nós, até os
dias de hoje e sobre os quais, só agora, sentimos poder começar a colocar
palavras. Frida dizia não fazer parte do movimento surrealista, mas ter uma
vida surrealista. Tudo era assim, nesse casal, vivido em carne viva e nervo
exposto! Ora aumentando as feridas existenciais um do outro, ora cuidando e
trazendo conforto, prosseguiram contando suas histórias interligadas. Mas, de todo modo, um mural de Diego não se confunde a um quadro de Frida,
prosseguiram sendo dois sujeitos, dois grandes artistas com formas e cores
próprias de falar sobre dores e ardores de uma vida vivida com sol a pino...
Foi, sem dúvida, um grande encontro! Para nós, encontro que deixou um legado de
referências que podem nos ajudar a nos entender melhor, a entender nossa história
(sobretudo, nossa vivência latina americana), nossos sentimentos, nossas
contradições e ambivalências. Tudo tão exagerado e tão verdadeiramente pulsante
que nos ajuda, inclusive, a buscar em nós mesmos a força para seguir lutando por
sonhos e amores que nos vinculem, tão fortemente, à vida, que nos façam
enfrentar a presença, inevitável, da morte. Vale à pena conhecer Frida, vale à
pena conhecer Diego, vale à pena conhecer Frida y Diego!
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
A Força da Esperança e das Canções
A Força da Esperança e das Canções
Por Ana Lucia
Gondim Bastos
As
tramas criadas por Victor Hugo (1802-1885) para seus personagens, deixam sempre
muito evidentes as dimensões históricas, sociais e psicológicas, que as
sustentam. É, justamente, isso que os tornam extremamente consistentes. O
Corcunda de Notre-Dame e Gwynplaine
(criança que tem o rosto mutilado, no sorriso eterno do “O Homem que Ri”) são
dois exemplos de personagens de Victor Hugo que engendram tais tramas e
estimulam nossos sonhos (e pesadelos), nosso espírito crítico, a crença no
nosso potencial de transformação (e de manutenção) de realidades e, também, por
conta de tudo isso, alimentam nossas esperanças! “Os Miseráveis” é, sem dúvida,
mais uma dessas delicadas (e ao mesmo tempo super pesadas) tramas de Victor
Hugo. Seus personagens ora parecem completamente submetidos às determinações
sociais, ora nos fazem acreditar na força da esperança e do amor. Nessa trama,
contudo, tais forças são fomentadas, bem mais do que pelo amor cultivado nas
relações interpessoais ou na felicidade presente em bons encontros e fortes
abraços (como acontece na história de amor do corcunda e sua cigana ou de
Gwynplaine e sua Déia), a ênfase recai, também, no amor de cada um por sua gente e por todos aqueles
que sofrem pelas injustiças e rótulos sociais. Traz a esperança fomentada
pela força da união de muitas vozes cantando pelos direitos humanos. Daí a pertinência
maior de transformar tal trama em musical, no qual o canto de um encontra o
canto do outro e, depois, do outro e do outro, até que um poderoso coro de
resistência se estabeleça. É, justamente, o que acontece na versão
cinematográfica dirigida por Tom Hooper (2012), que conta com elenco grandioso,
responsável por memoráveis e premiadas interpretações.
Uma
emocionante história cantada que me fez lembrar de certa feita ter recebido, de
uma criança, um conto intitulado “A Floresta em cantada”. O encanto de uma história
sonhada virou canção, para aquela menina que começara a explorar a escrita da
língua portuguesa. Achei bonito! Uma imagem que me permitiu embarcar com ela
numa viagem rumo a uma floresta que existe dentro dela e de todos que já foram
embalados por canções que apaziguam a novidade da existência e estabelecem a esperança
no futuro e no florescer de tudo que foi plantado com amor, durante a vida.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Se Perder para se Achar : notas sobre dois filmes de Sofia Coppola
Se
Perder para se Achar :
notas
sobre dois filmes de Sofia Coppola
Por Ana
Lucia Gondim Bastos
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Estar perdido na tradução, em espaços onde nada parece
fazer muito sentido, ou pelo menos, onde os sentidos que foram atribuídos a
cada coisa, até então, parecem perder a potência simbólica. Um momento de busca
por códigos e signos cuja familiariadade favoreça o estabelecimento dos novos
contornos necessários para que as ideias
e sentimentos suscitados por um novo lugar, um novo momento de vida ou uma nova
experiência (ou tudo isso junto), tenham possibilidade de compreensão e
compartilhamento. São momentos (e
lugares) de difícil acomodação e de considerável desconforto emocional, nos quais a falta de contorno também é
sentida no aspecto identitário. Num ambiente (situação/lugar ou experiência de
vida) novo, no qual nos sentimos (ou efetivamente somos) estrangeiros, somos
levados a uma redefinição de valores, de entendimentos e de formas de se tratar
ideias, sentimentos e ações. Ou seja, somos levados a uma redefinição de nós
mesmos e uma ressignificação da vida, com tudo o que ela comporta! Não é
difícil imaginar que esse processo exija um exercício de instrospecção, bastante
peculiar, para um reordenamento de nossos repertórios, de tudo o que já sabemos
(sobre nós mesmos e sobre o mundo) e tudo o que já vivemos até aquele momento.
Esses processos de ressignificação da vida e de nós mesmos - às vezes longos,
às vezes dolorosos e sempre, em alguma medida, desconfortáveis – podem ser
dificultados, quando a introspecção não é permitida e seu tempo de maturação
não pode ser respeitado. Hannah Arendt,
certa vez atentou para a importância da preservação à super exposição, de tudo o
que começa a se desenvolver. Para que o novo irrompa , necessita, antes, da
segurança da escuridão para, então, orientar-se para a luz (como fazem as
plantas, depois que brotam). A autora, referia-se, mesmo, à dificuldade de
conciliar, por um lado, a necessidade desse espaço seguro e protegido e, por
outro lado, os holofotes da fama. Esse entrelaçamento de temas – dos processos
de auto (re)definições e dos assédios do estrelato - volta aos roteiros de Sofia
Copola, em “Somewhere”(2010), depois de seu “Encontros e Desencontros” (Lost in
Translation, 2003).
São novas
metáforas, novos personagens, novos encontros e desencontros, mas os dois
roteiros várias vezes se tocam. Impossível não lembrar dos ajustes toscos do
terno que o ator usaria durante a filmagem do comercial em Lost in Translation,
quando o (também) ator famoso de Somewhere, desce da plataforma que faz com que
as câmaras não mostrem que é mais baixo que a atriz com quem contracenou, no
último Blockbuster de Hollywood. Também, a sensação de estranhamento do
estrangeiro americano diante da excitação dos apresentadores de shows de
auditório de países e línguas distantes, são comuns aos dois filmes (no
primeiro japonês e no segundo, italiano). E, também, a dificuldade dessas
celebridades falarem sobre si e a dificuldade de seus interlocutores de as
ouvirem, por estarem diante de personagens sobre os quais se supõe tudo saber...
Isso tudo, sem contar que , nos dois filmes, a trama se desenvolve em torno do
encontro transformador com um interlocutor (nos dois roteiros representados por
papéis femininos) que são capazes de refletí-los como pessoas perdidas que
são/estão, sem projetarem-se maciçamente nos astros de Hollywoody que
representam para todo o resto. Aliás, interpretações dignas de nota, no
primeiro filme a vizinha de quarto de hotel (também perdida na tradução),
interpretada por Scarlett Johansson e no segundo a filha adolescente,
interpretada por Elle Fanning (A Bela Adormecida de Malevola).
Não é de se espantar que o primeiro filme tenha sido
muito mais badalado e premiado, inclusive pela originalidade no tratamento do
tema e consistência da trama, mas, o segundo nos devolve questionamentos
importantes que, pelo jeito, Sofia Coppola ainda não sentira esgotado em seu
Lost in Translation. E quem de nós, como
nos ensinou Freud, está livre de recordar, repetir para, então, elaborar?
referencias bibliográficas (a quem interessar):
Arendt, Hannah – A Crise na Educação In Entre o Passado e o Futuro ;
Freud, S. - Recordar, Repetir e Elaborar (1914) In
Obras Completas
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
RÒSÁ
RÒSÁ
Por
Ana Lucia Gondim Bastos
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No Bom Retiro, o espaço que fora projetado para ser o Instituto Cultural
Israelita Brasileiro, por judeus progressistas que se estabeleceram no bairro
na época da primeira guerra, hoje é a Casa do Povo. Já teve seu tempo áureo, seu
tempo de abandono e, agora, a casa modernista que abriga imensos salões com
problemas de má conservação bastante evidentes, volta a receber investimentos e
boa programação cultural. Nas noites de quinta a domingo, no último
andar, onde se chega depois de subir os muitos degraus de uma escada de pedra,
somos convidados a entrar e tomar nossos lugares no meio de uma estrutura de
madeira que reduz o espaço a um quadrado, montado bem no centro do enorme salão. É
lá que ficamos presos na próxima hora e meia em companhia de Lowri Evans, Lucia
Bronstein e Martha Kiss (esta última responsável pela concepção e direção do
espetáculo) . Presos em suas falas, em seus gestos, em suas músicas e nas
imagens projetadas. Presos na história, nas ideias, nas experiências e nas
sensações de Rosa de Luxemburgo, em seus dias de encarceramento, no início do
século XX.
Num quadrado branco, num cenário de
poucos recursos e muita criatividade, ficamos frente à capacidade humana de
transcender os limites do físico e da física - de se manter pulsante ainda que
numa conjuntura de engessamento, de se manter livre ainda que numa condição de
confinamento, de manter a delicadeza do olhar ainda que num espaço de extrema
dureza – a capacidade de sonhar e de se ter esperança, “de sentir toda a
importância, toda a beleza, toda a verdade. Eu penso (diz Rosa) que a cada vez,
a cada dia, se deve vivenciar as coisas novamente em plenitude; senti-las em
plenitude e aí sim se encontrariam palavras novas para coisas velhas e
conhecidas. Palavras vindas do coração e dirigidas ao coração”.
Ao que parece, também a Casa do Povo,
com Rosa, encontra palavras novas para o que já foi, sai da condição de
obsoleto para espaço de utilização criativa, da posição de sem condições para
potencial pulsante de realizações. Rosa utiliza qualquer espaço para cultivar
seu jardim, bastava estar no espaço para nele cultivar vida e, assim, pode
continuar sendo. Sem dúvida, Ròsá é um espetáculo, no mínimo, inspirador!
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