domingo, 29 de março de 2015

Os Famintos ou Você tem fome de que – Parte II


Os Famintos ou Você tem fome de que – Parte II
Por Ana Lucia Gondim Bastos
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Comer com os olhos e com receios mil. Receio de engordar, de se intoxicar ou de se viciar e perder a linha? Por que vivemos famintos num mundo de excessos e de ofertas sempre muito sedutoras? É o que nos faz perguntar o premiado curta-metragem “Os Famintos” , com Biá Napolitani (que também assina o roteiro) e Diego Becker, dirigido por Ana Claudia Bastos (2008). No filme, as palavras não saem tanto quanto a comida não entra. O filme mudo trata de (in) satisfações e (im) possibilidades de se relacionar com o mundo e com o que ele pode nos oferecer seja para nos nutrir, seja como fonte de prazer. A atmosfera do filme nos remete a outrora, por um lado,  e o conteúdo, por outro, ao nosso universo de relações e satisfações virtuais, cuja sensação de controle é maior que qualquer outra e onde o prazer parece ali residir, principalmente. O filme dura poucos minutos, mas, os questionamentos que suscita, talvez a vida inteira.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Ana e os Lobos: sobre o limite do nosso poder transformador


Ana e os Lobos: sobre o limite do nosso poder transformador
Por Ana Lucia Gondim Bastos
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Mais em uns casos do que nos outros, contudo de forma nenhuma incomum, é a vontade de transformar o outro, vontade de abrir espaço para mudar um jeito de pensar, um ponto de vista ou uma forma de se relacionar do outro com o mundo,  que consideremos pouco produtiva ou danosa para o contexto individual ou coletivo. À vezes é uma vontade  fruto de genuína preocupação com o outro e/ou com o mundo que compartilhamos com ele, às vezes, não. Muitas vezes vem de uma reflexão crítica e de um mapeamento histórico sobre os porquês daquela conformação de pensamento e atitude, outras vezes, não. Muitas vezes, ainda, tais tentativas, geram embates, de fato, transformadores para ambos os lados. Contudo, também muitas vezes, geram intolerância e destruição. A grande diferença nos resultados das empreitadas por abrir novas janelas para o outro, não reside apenas, ou principalmente, na intencionalidade ou forma como tais tentativas acontecem. Reside, muito mais, na medida da disponibilidade desse outro para mudança, ou pelo menos, para pensar sobre elas. Então, reside na demanda de mudança proveniente de incômodo com seu modus operandi, incômodo que precisa ser suficiente para promover movimentos na direção do novo. Sem tais condições, as tentativas de transformar a ordem (ou a desordem) de outrem serão, na melhor das hipóteses, estéreis.
Em 1972, a personagem de Geraldine Chaplin, no clássico “Ana e os Lobos”, do genial Carlos Saura, já nos fazia pensar sobre isso tudo. Ela, uma jovem inglesa, chega a uma mansão de campo na Espanha para cuidar das 3 crianças que ali viviam, junto com seus pais, tios, a avó e muitos empregados. A dinâmica da casa gira em torno da matriarca controladora e mimada que passa os dias a demandar mil coisas, a ser carregada de um lado pra outro e a reclamar sobre como nada é mais como antigamente. De tempos em tempos, tem crises nervosas que a faz se debater no chão, momento de todos correrem para a acudir. Os filhos são três: um místico que vive buscando a renúncia das satisfações do corpo, um colecionador de armas e uniformes militares a quem é atribuído o poder de manter a ordem e o pai das crianças, o único casado, que tem o sexo como interesse central de sua vida. Através da relação, inicialmente de fascínio e interesse, que cada um começa a estabelecer com Ana, vai se revelando o caráter perigoso e mórbido da repetição, no universo asfixiante de uma realidade sem brecha para que ar fresco possa entrar. Fatos estranhos começam a ocorrer, proveniente das três facetas representadas pelos irmãos e, surpresa, Ana vai percebendo que todos sabem a quem atribuir a responsabilidade por tais ocorridos, percebe, também, que nada os espanta. Quanto mais vai entendendo a dinâmica da casa, mais a moça vai se aproximando de cada um integrantes e de suas manias. Nesse processo, vai buscando acesso ao universo particular de cada integrante da casa e, em determinado momento, parece imaginar ter conseguido entrada. Mas, ali, quando a mãe reclama do mal funcionamento das coisas na atualidade, está apenas ressentida por ter perdido o controle, ainda maior, que já teve. Ana, fica claro, teria sido contratada para ser mais uma a manter a ordem das coisas e não para altera-la. Talvez, ela venha a perceber isso tudo, tarde demais e o final dessas histórias, nesses casos, são sempre tristes. Mas, a arte está aí, também, para nos permitir a reflexão acerca das nossas escolhas cotidianas. Sem dúvida, onde e em que investir nossa força criativa merece, sempre,  o foco de tais reflexões.

sexta-feira, 13 de março de 2015

A estranha mania: onde Blade Runner encontrou Her


A estranha mania: onde Blade Runner encontrou Her
                                  Por Ana Lucia Gondim Bastos 
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Quando, em 2014, assisti ao filme "Her" (Spike Jonze, 2013), então o  ganhador do Oscar de melhor roteiro, me ative nas reflexões acerca dos facilitadores  de investimentos narcísicos, apresentados pelo universo da virtualidade. No filme de ficção científica, passado num futuro próximo, o personagem interpretado por Joaquim Phoenix se apaixona por um novo sistema operacional inteligente, instalado em seu computador. O sistema, para o qual foi selecionada uma voz feminina (a voz de Scarlett Johansson), passa a fazer parte da vida do protagonista, de forma tão intensa e satisfatória, que vai restringindo as relações do personagem com o resto do mundo, ou melhor, vai transformando tais relações, já que essas passam a ter mais sentido pela presença constante, e ao alcance das mãos, da doce voz de Scarlett, sempre com boas e oportunas ideias (até porque sempre adequadas aos gostos e interesses de seu usuário).
Reflexões semelhantes me ocorreram quando assisti ao filme "Blade Runner" (Ridley Scott, 1982), há anos atrás, época na qual 2019 me parecia um futuro bem distante. O Caçador de androide, interpretado por Harrison Ford, era o retrato da solidão e da dificuldade da troca de experiências significativas, num mundo de relações sociais esgarçadas, relações de poder marcadas por um colapso ético e definidas em função de interesses meramente mercadológicos.  Mundo no qual replicas perfeitas de humanos e animais são construídas para servir a parcela privilegiada de humanos que vão se aventurar em colônias extraterrestres, já que o planeta Terra já se configura um grande rastro de destruição e decadência civilizatória.
Talvez por ter tais futuros (o desenhado por Jonze e o por Scott) tão próximos - na verdade, colados ao presente - talvez pela necessidade de abrir espaço para criatividade e para a esperança nesses tempos, quem sabe pela necessidade de continuar acreditando que todas as lutas, travadas no passado, por um futuro melhor não foram em vão ou, ainda, por todas as alternativas anteriores, me peguei relacionando esses filmes de forma diferente. Esta semana, semana de tantas notícias e postagens carregadas de raiva e de informações acerca de trágicos eventos motivados pela intolerância que autoriza o desejo e a ação de gente “deletar” gente (talvez da mesma forma que os caçadores de androides de Scott não se percebiam matando, mas, sim, retirando replicantes), volto a assistir Blade Runner e acabo com uma sensação, surpreendentemente, boa. Penso na cena do personagem de Ford olhando para sua Rachel, olhar que a humaniza por considerar suas memórias e seus sentimentos, cultivados a partir daí (apesar de saber se tratar de uma memória implantada, foi por ela apropriada e, então, é dela e a faz capaz de se emocionar). Na mesma hora me vem a imagem do personagem de Phoenix desolado ao perceber que sua Johansson nunca vai poder oferecer a reciprocidade do amor a ela devotado, já que ele é apenas mais um usuário do sistema e ela não tem corpo ou memória afetiva.
Então, se o ser humano tem a estranha mania de não desistir de ser cada vez mais poderoso, sempre ansioso por aumentar seu domínio sobre tudo e todos, ele, também, tem uma capacidade empática que, muitas vezes, o faz parar no olho no olho com alguém, que o faz sofrer pelo outro, que o faz querer ajudar alguém em quem reconhece a dor, que o faz querer ser amado não por sua força, mas pelo reconhecimento de sua própria capacidade de amar. Enfim, que o faz portador, também, de uma estranha mania de ter fé na vida! Sendo assim, sigamos lutando por um mundo melhor e mais solidário!

terça-feira, 10 de março de 2015

Asas do Desejo


Asas do Desejo
                                           Por Ana Lucia Gondim Bastos
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Desde a época que éramos bípedes da savana - nos lembram os anjos de Asas do Desejo – um ou outro de nós, quem sabe um grupo ou outro de nós, corria em zigue zague seguido por pedras atiradas de longe. Assim, pelo menos nos contam os anjos de Win Wenders (1987), as guerras costuram nossas histórias, fazendo-as comportarem respeitáveis doses  de destruição, de separações, de medos, de inseguranças, de desconfianças, de ódio e desalento. O vazio existencial, a solidão, a vulnerabilidade da condição humana e as imperfeições da vida que sabemos sustentar a guerra e a paz, nos atordoam e afligem. Nos confundem pensamento e roubam momentos de satisfação. Enquanto isso anjos passeiam entre nós, sem que os percebamos, testemunhando nossas dores, apoiando nossas cabeças caídas num momento de desesperança ou nos ajudando a suportar o peso dos ombros exaustos. Nesse contexto de tantas repetições e talvez poucas mudanças, no universo preto e branco de quem não sente o peso dos ossos e o cansaço do corpo, um anjo percebe-se encantado com o universo de quem, com tudo isso, espera o amanhã, se alegra num dia de domingo tranquilo, ama pessoas e com elas estabelece vínculos afeto que lhes aquece o coração. Se diverte no circo ou é trapezista que encanta o público que se deixa iludir confiando na leveza e na facilidade de voar do artista. Esquenta as mãos esfregando uma na outra, suspira de prazer tomando um chocolate quente numa tarde fria, faz filmes para contar histórias pros outros e escolhe roupas e chapéus para sair às ruas. Uma vida de colorido ímpar! Uma vida que vale experimentar, mesmo que o custo seja a consciência de que um dia acaba. Um anjo se joga para experimentar e Win Wenders nos presenteia com diálogos densos que, em muitos momentos, no faz recebe-los num fôlego só. Um filme que fala sobre o peso da existência humana em forma de poesia, que é como podemos dar conta dele.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Entre ontem e amanhã: Meia Noite em Paris


Entre ontem e  amanhã: Meia Noite em Paris
Por Ana Lucia Gondim Bastos
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Entre o passado e o futuro encontra-se um tempo menos passível de idealizações, entretanto, o único efetivamente fértil para realizações. O futuro pode ser imaginado de diversas formas, tendo a passagem de um cenário idealizado a outro, sempre facilitada. É nele que projetamos encontrar o algo que, ao alcançarmos, poderá nos fazer “felizes para sempre”. Ao contrário do que propõe a poesia de Cecília Meireles “Ou Isso ou Aquilo”, o futuro é um tempo no qual o isso, o aquilo e muitos mais aquilos outros convivem e se alternam sem maiores compromissos com as leis da física. Uma hora posso me imaginar viajando pra China e logo em seguida me imaginar na Califórnia, posso vir a falar várias línguas ou conquistar qualquer título ou prêmio. Na hora da realização, no entanto, se faz preciso considerar os limites do tempo, do corpo, do mundo, das  relações, das habilidades e competências de quem vai priorizar o que realizar. É, justamente, aí que  o “Ou Isso ou Aquilo” se impõe, por vezes, de forma dolorosa. Uma dor que, quando enfrentada, pode anteceder a satisfação da realização do possível, realização do que se compartilha e do que promove transformações nos mundos externo e interno do seu responsável. Nesse processo, novos sonhos e objetivos vão ganhando contorno e o sentido da vida vai sendo renovado, sempre no presente. Assim, apesar da esperança habitar o por vir, ela só pode ser renovada no aqui e agora de cada história.
E quanto ao passado, o que podemos falar? O passado é um tempo passível de edição, de utilização de uma espécie de Photoshop da memória. É isso que nos faz nos orgulhar enormemente do que acontecia e do como as pessoas se relacionavam “no nosso tempo”, como se nosso tempo não fosse o presente, ou melhor, como se o presente não fizesse parte de um tempo que é nosso, tão nosso quanto o que já foi ou o que vai vir a ser, até que a morte nos separe da vida entre os homens. Da mesma forma, muitas vezes, tal idealização nos faz achar que nascemos no tempo “errado”. Pensamos que tudo seria diferente e mais promissor se estivéssemos num tempo anterior ao do nosso nascimento, com certeza, tempo de maior fartura e produtividade intelectual. Tempo que não comportava o vazio existencial que, tantas vezes, o presente comporta por considerarmos a vida insatisfatória ou por termos dificuldade de nos conformarmos com o fato de que a felicidade absoluta e plena só pode fazer parte da vida como abstração. Esse é o tema do brilhante e delicado “Meia Noite em Paris” (2011) , primeiro filme da série de roteiros nos quais Woody Allen dedicou-se a levar seus personagens para passear para fora dos domínios dos grandes centros urbanos dos Estados Unidos. Nele, Gil Pender (personagem interpretado por Owen Wilson), um roteirista com espaço já conquistado nos estúdios hollywoodianos e prestes a casar com uma bela moça de uma rica e conservadora família americana, tem, em uma viagem a Paris, a oportunidade de busca de referencias e inspiração para a mudança de rumo de sua trajetória que, há tempos, o vinha incomodando. Inicialmente, tais oportunidades acontecem em visitas ao passado parisiense, numa espécie de mágica que desresponsabiliza Gil do processo. Aos poucos tais visitas vão sendo entendidas e tratadas, pelo próprio protagonista, como fugas ao passado que, como tal, só poderiam condena-lo a um ciclo de repetição sem fim, não oferecendo chance alguma para o novo se manifestar no presente, única morada da esperança e espaço onde o encontro transformador com o outro pode acontecer. Numa história bem contada, com participações de personagens como Buñuel, Dali, Toulouse, Cole Porter e Picasso, no cenário encantador da Paris de todos os tempos e embalados por uma trilha sonora maravilhosa, impossível não projetarmos novas viagens a tempos e lugares de sonho. Se tais projetos ficarão no passado, no futuro ou entre o passado e o futuro, assim como, a serviço do que colocaremos tais projetos, fica a cargo de cada um, condicionados pelo o que estabelecemos como condutores de nossas narrativas. Seja qual for seu caso, Bon Voyage!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sobre Birdman e outros super heróis

Sobre Birdman e outros super heróis 
Por Ana Lucia Gondim Bastos
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Cercados pelo universo da publicidade, com seus sem-número de promessas de felicidade, de sucesso e de receitas para alcançar a perfeição e a plenitude, há gerações, assistimos meninos e meninas tornarem-se adultos crédulos em capas mágicas e em finais triunfantes. Chegam a acreditar que se não se sentem plenos, é porque não fizeram a coisa certa, ou seja, não acertaram na escolha do caminho que, com certeza, os levaria ao reino da fruição e do contentamento. Logo, a frustração sem tamanho os assombra com tanta força quanto a utilizada para se manterem agarrados à ilusão da completude narcísica. E assim vão vivendo numa montanha russa que ora os faz acreditar na supremacia de seus super poderes, ora os leva em queda livre ao vazio existencial. É o que acontece com Riggan Thomson, protagonista de  Birdman, filme de Alejandro Gozález (2015). Um ator (interpretado por Michael Keaton – nosso “para sempre” Batman, diga-se de passagem) que teve seu tempo áureo de fama e sucesso interpretando o Homem Pássaro, um super herói dos quadrinhos. No entanto, desde que se recusou a interpretar o personagem em seu quarto filme, Riggan deixou de ser o alvo dos holofotes da fama do cinema americano, grande ditame de critérios de sucesso. Prestes a estrear um novo trabalho no qual além de atuar, também assinará a direção, Riggan precisará lidar com tudo o que reside por trás das cortinas. Nesse momento de grande pressão e expectativa, o Homem Pássaro aparece como um alter ego que o convoca a entrar na referida montanha russa que leva, com rapidez e sem escalas, da onipotência à submissão. A interação dele com os outros personagens da trama – por exemplo, com a filha recém egressa de uma clínica de desintoxicação (interpretada por Emma Stone) ou com Mike, ator que entra para dividir o palco e o brilho da peça (interpretado por Edward Norton) – vai oferecendo outra complexidade à relação de Riggan com seu Homem Pássaro ou, mesmo, com seus super poderes. A dificuldade de se desvencilhar dessa relação com seu super herói, que vai tomando conta da cena e ganhando proporções delirantes, começa a comprometer a capacidade de manejo dos diversos papéis que a vida reserva à Riggan (no palco e fora dele). Assim, Bidman nos leva à necessária reflexão sobre a importância, sobre a dor e sobre a beleza da desilusão que, segundo Maria Rita Kehl , “nos coloca diante de nossa condição: somos humanos, somos mortais, somos solitários, somos incompletos. Mas, uma vez aceitas as determinações fundamentais da condição humana, uma vez rompidos com os domínios da fantasia, se abrem para nós as possibilidades infinitas do domínio das paixões: nem a onipotência, nem a submissão, mas a conquista do território humano. O mais vasto território por onde o desejo pode se mover”. (A Psicanálise e o Domínio das Paixões In Os Sentidos da Paixão – Cia das Letras, 1986).


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Onde Whiplash esbarra no Cisne Negro


Onde Whiplash esbarra no Cisne Negro
             Por Ana Lucia Gondim Bastos
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Dois jovens no início de suas trajetórias profissionais, buscando abrir espaço para mostrar a que vieram: Andrew com suas baquetas e Nina com suas sapatilhas.  Andrew tem apenas o pai como figura parental de referência e Nina, apenas a mãe. O pai de Andrew parece se sentir tão abandonado quanto o filho, por uma mãe sobre a qual pouco se sabe, pois a dupla pouco conversa, apesar de se fazerem companhia, principalmente para assistir a filmes comendo pipoca (aliás, os raros diálogos entre pai e filho se limitam à comentários sobre a pipoca da hora do filme). A mãe de Nina demostra a todo momento ter sua vida girando em torno da vida da moça, ainda tratada como criança, ou melhor, tratada como uma boneca na qual a mãe projeta todos os seus ideais. São personagens de filmes e de diretores diferentes. O primeiro é o personagem central de Whiplash de Damian Chazelle (indicado ao Oscar de melhor filme de 2015) e interpretado por Miles Teller. A segunda de Cisne Negro de Darren Aronofsky (indicado ao Oscar de melhor filme em 2011), interpretada por Natalie Portman. Têm em comum, além da juventude, a atitude de isolamento, a insegurança, a dificuldade de relacionamento e o sonho de encontrarem um lugar ao sol, um caminho de sucesso nas artes escolhidas: ele na música e ela no ballet. Sim, a determinação e a disciplina são outro ponto em comum desses jovens que nos cativam, inclusive, por suas fragilidades. Impossível não assistir a um desses filmes sem torcer por eles! Torcer para que fiquem bem, para que passem a curtir as possibilidades que a música ou a dança podem lhes oferecer, para que se relacionem de forma mais leve com o mundo e para que, sim, tenham seu esforço reconhecido. Mas, eles parecem querer mais que isso, eles precisam de uma aprovação, de um reconhecimento e de um desempenho sobre humanos. Sofrem da sensação de nunca serem suficientes. Suficiente para que? Acho que não chegam a se perguntar. Mas, encontram em seus destinos um maestro (no caso dele)  e um coreógrafo (no caso dela), convencidos de terem a medida da excelência e dispostos a passar por cima de qualquer limite e a correr qualquer risco para chegar onde querem: na execução perfeita da música ou da dança. Um encontro que, em alguns momentos, pode até parecer promissor, mas, que logo evidencia seu poder desorganizador e destrutivo. Os cartazes dos filmes contam de uma boneca de porcelana quebrada e de um rapaz que tem nas baquetas trampolim para um abismo: cartazes que contam tudo, traduzem os filmes. Apesar de terem optado por formas diferentes de desfecho para seus roteiros, os diretores, nessa perspectiva que apresento, falam da mesma coisa: da inconsequente falta de cuidado com a fragilidade humana que algumas relações comporta, e da inversão de valores que acontece toda vez que a busca pela perfeição impede de se observar limites humanos. O sentido da vida passa a escapar da própria vida, a se sobrepor a ela. Assim, ela passa a ser apenas um meio para se deixar um legado de perfeição, ainda se morra mais cedo, mais rápido e de forma mais dolorosa. Num dos filmes isso fica explicitado no desfecho, no outro, nem tanto. Contudo, o final dramático me pareceu evidente em ambos. Me surpreendeu, portanto, ouvir opiniões que traziam a ideia de que um dos personagens tenha obtido um “final feliz” na busca pela perfeição. Até porque a perfeição marcaria o fim do desejo, o encerrar de qualquer busca, em outras palavras, se refere à morte. Seria esse o “final feliz” que tais opiniões expressam ou será que não se deram conta do preço pago pela tal busca da perfeição?