quinta-feira, 16 de abril de 2015

Cinderella


Cinderella
(para Flora, tão pequena e já com tanta atitude e coragem)
Por Ana Lucia Gondim Bastos
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Apesar de estar longe de propor uma nova versão para o conto de fadas, transformado em animação, pelos Estúdios Disney, em 1950, o recém lançado longa metragem Cinderella, dirigido por Kenneth Branagh, traz elementos dignos de nota. A narrativa linear e sem surpresas, faz com que os bem pequenos consigam acompanhar, sem maiores dificuldades, o filme que traz cores e texturas que se apresentam como um convite a entrar num livro de contos encantados, daquelas edições especiais que, ainda hoje, enchem os olhos das crianças, nas prateleiras das livrarias ou nas mãos do adulto à beira da cama, na hora de dormir. Mas, não é exatamente, esse clima de magia, tampouco a narrativa linear, que faz com que o filme se apresente como uma opção interessante para um dia no cinema em companhia mirim.
 A história da Cinderella, começa com ela ainda bebê, crescendo numa família que tinha em seu cotidiano a valorização do olhar que se abre para a possibilidade de projetar novas realidades no mundo, percebendo-o de forma dinâmica e com encantamento e magia. Antes de morrer, sua mãe, deixa como herança o ensinamento de que o principal na vida é ter coragem e gentileza. Sim, Cinderella não se daria bem e encontraria a felicidade por ser bela e obediente, mas pelo cultivo da coragem e da gentileza, o que faz muita diferença! Assim, quando entram em cena a madrasta má (papel da excelente Cate Blanchett) e suas filhas Anastasia e Drisella, Cinderella não as recebe com subserviência e é invejada pela beleza, o que está em jogo, na relação desta Cinderella com os novos personagens de sua história, é a gentileza e a coragem de enfrentar “a barra da vida”. Anastasia e Driesella são tão bonitas ou inteligentes quanto Ciderella, o que lhes falta é atitude diante da vida e de seus projetos. Essa é a diferença entre elas. Enquanto as duas primeiras esperam que seus desejos se realizem por serem especiais, a última procura manter a crença nas relações com o mundo baseadas na generosidade e na força transformadora de realidades. Numa das vezes que sai galopando pela floresta, afim de se afastar um pouco do clima de animosidade de sua casa, após a morte de seu pai, Cinderella conhece um rapaz que acompanhava um grupo de caça e, com ele, trava um diálogo no qual questiona os porquês de fazermos as coisas como sempre foram, simplesmente, por repetição acrítica. O rapaz, em questão, que passaria a povoar sonhos e devaneios de Cinderella, tratava-se do príncipe herdeiro, mas ela desconhecia o fato. O príncipe, por outro lado, também encantou-se com a moça, novamente, menos pela beleza e mais pela forma como ela se colocou na conversa que travaram, fazendo com que o fizesse, inclusive, passar a discutir as regras reais através das quais só poderia se casar com uma princesa. Queria escolher alguém como sua companheira, alguém que o fizesse se sentir como se sentiu com aquela moça,  que o motivou a questionar os porque do “sempre assim” da vida. No final, o príncipe propõe um baile para todo o reino, na esperança de rever a moça com a qual se encantou. A madrasta e as irmãs rasgam o vestido que Cinderella arrumara para ir ao baile, é quando entra em cena a fada madrinha (outra atuação muito  boa de Helena Bonhan Carter) que transforma uma abobora em carruagem e ratos em cavalos e todo o “Bibidi-Bobidi-Boo”, velho nosso conhecido, até o tão aguardado reencontro do casal, separado pelas doze badaladas.
 Portanto, não podemos dizer que o novo filme da Cinderella é um grande marco para o cinema voltado ao público  infantil, mas, as mudanças sutis que traz no enredo, nos faz sair do cinema com menos receio de que, através das histórias que apresentamos para nossas meninas, estejamos a construir prisões em forma de castelos e  alternativas de caminho para o feminino sempre como sapatinhos de cristais: apenas encantadores pela beleza e fragilidade.

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